segunda-feira, 27 de maio de 2013

AMIGO



Amigo é o vinho mais tinto
o vinho mais branco
é água de afago
o rio mais manso
amigo é o caminho
mais leve
o lugar mais seguro
é clareira no tempo
é fogueira de mel.

Roseana Murray
In Fruta no Ponto

sábado, 25 de maio de 2013

EXPECTATIVA



Neste instante em que espero
uma palavra decisiva,
instante em que de pés e mãos
acorrentada estou,
em que a maré montante de meu ser
se comprime no ouvido à escuta,
em que meu coração em carne viva
se expõe aos olhos dos abutres
num deserto de areia,
— o silêncio é um punhal
que por um fio se pendura
sobre meu ombro esquerdo.

E há uma eternidade
que nenhum vento sopra neste deserto!

- Henriqueta Lisboa,
 in "Prisioneiro da noite"



quinta-feira, 23 de maio de 2013

O BAÚ



Como estranhas lembranças de outras vidas,
que outros viveram, num estranho mundo,
quantas coisas perdidas e esquecidas
no teu baú de espantos... Bem no fundo,

uma boneca toda estraçalhada!
(isto não são brinquedos de menino...
alguma coisa deve estar errada)
mas o teu coração em desatino

te traz de súbito uma idéia louca:
é ela, sim! Só pode ser aquela,
a jamais esquecida Bem-Amada.

E em vão tentas lembrar o nome dela...
e em vão ela te fita... e a sua boca
tenta sorrir-te mas está quebrada!



Mário Quintana
In: Esconderijos do Tempo

quarta-feira, 22 de maio de 2013

ANUNCIAÇÃO



Toca essa musica de seda, frouxa e trêmula
que apenas embala a noite e balança as estrelas noutro mar.
 
Do fundo da escuridão nascem vagos navios de ouro,
com as mãos de esquecidos corpos quase desmanchados no vento.
 
E o vento bate nas cordas, e estremecem as velas opacas,
e a água derrete um brilho fino, que em si mesmo logo se perde.
 
Toca essa musica de seda, entre areias e nuvens e espumas.
 
Os remos pararão no meio da onda, entre os peixes suspensos;
e as cordas partidas andarão pelos ares dançando à toa.
 
Cessará essa musica de sombra, que apenas indica valores de ar.
Não haverá mais nossa vida, talvez não haja nem o pó que fomos.
 
E a memória de tudo desmanchará sua dunas desertas,
e em navios novos homens eternos navegarão. 
 
 
 
Cecília Meireles
In: Poesia Completa

sábado, 18 de maio de 2013

ALBERT CAMUS


“Abençoados os corações flexíveis, 
pois nunca serão partidos”.

Albert Camus

sexta-feira, 17 de maio de 2013

FACTUAL



um estalido
cai uma folha seca
no quintal

factualmente

e o poeta retoma a velha tecla
e bate, bate
todo o outono que sente...


Fernando Campanella

quinta-feira, 16 de maio de 2013

SUGESTÃO



Sede assim – qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Flor que se cumpre,
sem pergunta.

Onde que se esforça,
por exercício desinteressado.

Lua que envolve igualmente
os noivos abraçados
e os soldados já frios.

Também com este ar da noite:
sussurrante de silêncios,
cheio de nascimentos e pétalas.

Igual à pedra detida,
sustentando seu demorado destino
E à nuvem, leve e bela,
vivendo de nunca chegar a ser.

À cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que mastiga sua longa solidão,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocência para a morte.

sede assim qualquer coisa
Serena, isenta, fiel.

Não como o resto dos homens.


Cecília Meireles
in Mar absoluto e outros poemas

terça-feira, 14 de maio de 2013

CLARICE LISPECTOR



"Ela acreditava em anjo e,
porque acreditava, eles existiam."

Clarice Lispector 
in A Hora da Estrela

sexta-feira, 10 de maio de 2013

ALICE RUIZ


Depois que um corpo
comporta outro corpo,
nenhum coração suporta o pouco.

Alice Ruiz 

quarta-feira, 8 de maio de 2013

O VELHO POETA



Um dia o meu cavalo voltará sozinho
E assumindo
Sem saber
A minha própria imagem e semelhança
Ele virá ler
Como sempre
Neste mesmo café
O nosso jornal de cada dia
inteiramente alheio ao murmurar das gentes...

Mario Quintana
In Baú de Espantos

domingo, 5 de maio de 2013

DESEJO DE REGRESSO



Deixa-me nascer de novo,
nunca mais em terra estranha,
mas no meio do meu povo,
com meu céu, minha montanha,
meu mar e minha família.

E que na minha memória
fique esta vida bem viva,
para contar minha história
de mendiga e de cativa
e meus suspiros de exílio.

Porque há doçura e beleza
na amargura atravessada,
e eu quero a memória acesa
depois da angústia apagada.
Com que afeição me remiro!

Marinheiro de regresso
com seu barco posto a fundo,
às vezes quase me esqueço
que foi verdade este mundo.
(Ou talvez fosse mentira. . .)


Cecília Meireles
In Mar Absoluto e Outros Poemas

sexta-feira, 3 de maio de 2013

ESTRANHAS AVENTURAS DA INFÂNCIA



Era um caminho tão pequenino
Que nem sabia aonde ia,
Por entre uns morros se perdia
Que ele pensava que eram montanhas...

Enquanto a tarde, lenta, caia,
Aflitamente o procuramos.
Sozinho assim, aonde iria?
Porém, deixamos para um outro dia...

Perdido e só, nós o deixamos!

E quando, enfim, ali voltamos
Já nada havia, só ervas mas...
Tão vasto e triste sentiste o mundo
Que te achegaste, desamparada...

E foi bem juntos que regressamos,
Ombro com ombro, a mão na mão,
Enquanto, lenta, caía a tarde
E nos espiava a bruxa negra...

E nos seguia a bruxa negra
Que hoje se chama Solidão!


Mario Quintana
In Baú de Espantos

quinta-feira, 2 de maio de 2013

PAULO LEMINSKI


relógio parado
o ouvido ouve
o tic tac passado

Paulo Leminski,
in Toda Poesia

quarta-feira, 1 de maio de 2013

CAMPO




CAMPO da minha saudade:
vai crescendo, vai subindo,
de tanto jazer sem nada.

Desvêlo mudo e contínuo
que vai revestido os montes
e estendendo outros caminhos.

Mergulhada em suas frondes,
a tristeza é uma esperança
bebendo a vazia sombra.

Águas que vão caminhando
dispersam nos mares fundos
mel de beijo e sal de pranto.

Levam tudo, levam tudo
agasalhado em seus braços

Campo imenso — com o meu vulto...

E ao longe cantam os pássaros.

Cecília Meireles
in 'Viagem'