segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

EXCERTO LITERÁRIO



Arte fotográfica:
Josh Adamski



Penso muitas vezes no dia em que vislumbrei o mar
pela primeira vez. 
O mar é grande, o mar é imenso, o meu olhar 
vagueava pela praia fora e esperava ser libertado:
mas lá ao fundo, porém, estava o horizonte. 
Por que razão tenho eu um horizonte?

Da vida, eu esperei o infinito.

Thomas Mann
in Desilusão 


EXCERTO LITERÁRIO


Arte Morteza Katouzian

“Mas afinal, o que se leva da vida, senão os remorsos?
 Remorsos do que poderia ter sido e não foi, e do que
 se perdeu depois de ter sido. Remorsos do que devia 
 ter sido dito e feito, e não o foi a tempo, ou do que
 foi demasiadamente dito e feito. Remorsos destes 
 eternos desencontros, desta sensação de que nada
 existe no seu tempo certo, de chegar sempre tarde
 ou partir cedo demais.”

 Miguel Sousa Tavares, 
Não Te Deixarei Morrer, David Crockett










domingo, 19 de fevereiro de 2017

CITAÇÃO



Arte Claudia Tremblay

" A única eternidade que nos é certa: 
continuarmo-nos em nossos filhos...
como flor que morre na imortalidade 
da semente."

Mia Couto 
in " Na berma de nenhuma estrada "


CITAÇÃO



Arte Claudia Tremblay

"Afinal, a vida se confirma à força de rasgão:
 ela dilacera logo no ato de nascer,
 separando mais que a própria morte."

Mia Couto in
 " Na berma de nenhuma estrada "


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

CITAÇÃO




" Saudades de um tempo em que
 o mundo era dócil."

Mia Couto in 
" Contos do Nascer da Terra" 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

CITAÇÃO



Arte Ariana Richards


Viver é a arte de persistir com delicadeza.

Fabrício Carpinejar









segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

CITAÇÃO



Não tinha certezas.
A vida ensinara-o : não confies.
Prevenia-se sempre com uma dúvida.
Entre o pavor de um desengano e a
necessidade de acreditar
– interpunha a dúvida.

Era essa, talvez, a raiz da sua solidão.

Fernando Namora 
em Cidade Solitária





quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

CITAÇÃO



 Os olhos são os intérpretes do coração,
 mas só os interessados entendem essa
 linguagem.

 Blaise Pascal

Arte Christina Papagianni


CITAÇÃO



A vida é um caminho de sombras e luzes.
O importante é que se saiba vitalizar 
as sombras e aproveitar as luzes.

 Henri Bergson

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

CITAÇÃO



 O género humano é mais ou menos isto:
 um imenso viveiro de ostras,
 onde umas dão pérolas e outras
 poderiam tê-las dado.


António Alçada Baptista

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

EXCERTO LITERÁRIO




«Deus não exige de nós nenhum culto;
 prestamos a nossa homenagem a Deus,
 entramos em contacto pleno com o Universo,
 quando desenvolvemos a nossa Inteligência
 e o nosso Amor: um laboratório, 
 uma biblioteca são templos de Deus;
 uma escola é um templo de Deus; uma
 oficina é um templo de Deus; um homem é 
 um templo de Deus, e o mais belo de todos.
 Todos podemos ser sacerdotes, porque todos
 temos capacidades de Inteligência e de Amor;
 e praticamos o mais elevado dos cultos a 
 Deus quando propagamos a cultura, o que 
 significa o derrubamento de todas as 
 barreiras que se opõem ao Espírito.»

 Agostinho da Silva  
in, Textos e Ensaios Filosóficos I 


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

EXCERTO



[...]
Descalço venho dos confins da infância, 
E a minha infância ainda não morreu…

Pedro Homem de Mello

Fotografia Lilia Alvarado

EXCERTO



"A coisa mais difícil e mais bonita
 de partilhar entre duas pessoas é o silêncio.”

 Miguel Sousa Tavares,
de 'No teu deserto'




sábado, 28 de janeiro de 2017

EXCERTO LITERÁRIO



Hoje acordei com a dor das árvores;
estou de pé e o meu tronco sustém
o vazio e a solidão dos ramos
côncavos de espera,
impacientes de ternura.
Quero o bracejar dos pássaros,
ser refúgio dos ventos que me procuram,
tornar-me na folhagem que te abriga,
ser o ninho na tua noite, aberto
com a inquietação e a serenidade
dos rumores das aves mais tardias.
Não, desta vez não vou com os ventos...


Lília Tavares
in, Parto com os ventos

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

DO AZUL, NUM SONETO



Verificar o azul nem sempre é puro.
Melhor será revê-lo entre as ramadas
e os altos frutos de um pomar escuro
- azul de tênues bocas desoladas.


Melhor será sonhá-lo em madrugadas,
fresco, inconstante azul sempre imaturo,
azul de claridades sufocadas
latejando nas pedras – nascituro.


Não este azul, mas outro e dolorido,
evanescente azul que na orvalhada
ficou, pétala ingênua, torturada.


Recupero-o, sem ter, e ei-lo perdido,
azul de voz, de sombra envenenada,
que em nós se esvai sem nunca ter vivido. 



Alphonsus de Guimaraens Filho 
In: Antologia Poética

domingo, 22 de janeiro de 2017

SÓ NÓS



"Quantas vezes tentaram adivinhar
 o que sentíamos,e erraram.
Julgaram nossas ações, e erraram.
Tiveram certezas sobre nossos
 propósitos, erraram.
O que somos de verdade e queremos
 de fato,só nós sabemos."

Só nós.

- Sós-

Martha Medeiros

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

EXCERTO LITERÁRIO




(...) Meu Deus, a pouco e pouco vamo-nos
 tornando sotãos onde o passado amarelece,
 a pouco e pouco os sotãos invadem a casa
 que somos, principiamos a mover-nos entre
 sombras truncadas de gente, emoções,
 memórias. Lentamente tiram-nos tudo, o
 presente afunila-se, o futuro uma parede.
 E nós, apesar de adultos, tão crianças,
 assustados, perdidos, juntando pedaços
 dispersos para nos reconstruirmos de
 novo, continuarmos. Na direcção de quê?
 Para onde? Quem nos espera ainda? (...)

António Lobo Antunes,
 in Livro de Crónicas

domingo, 8 de janeiro de 2017

EXCERTO LITERÁRIO




“Dai-me a paz dos estábulos, pedi a Deus,
 das coisas realizadas, das colheitas recolhidas.
 Deixai-me ser por ter terminado de me realizar.
 Estou cansado das lutas do meu coração.
 Estou velho demais para recomeçar todos os meus
 ramos. Fui perdendo um a um os amigos e os inimigos.
 E a luz do meu caminho é hoje triste e fraca.
 Me afastei, voltei, olhei: fui encontrando os
 homens em volta do Bezerro de Ouro não
interessados, porém estúpidos. E as crianças
 que nascem hoje, me parecem mais
 estrangeiras do que os bárbaros sem religião.
 Levo comigo o peso dos tesouros inúteis 
como uma música que nunca ninguém compreenderá.”


Antoine de Saint-Exupéry, 
in Cidadela






quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Martha Medeiros




"Pois, diante desse imenso ponto de interrogação
 que é o futuro de todos nós, reformulei minhas
 crenças: estou me dando o direito de não pensar
 tanto, de me cobrar menos ainda, e deixar para
 compreender depois. Desisti de atracar o barco
 e resolvi aproveitar a paisagem."


Martha Medeiros


terça-feira, 20 de dezembro de 2016

NATAL DE 1971




Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
as cinzas de milhões?
Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
em ser-se concebido,
em de um ventre nascer-se,
em por de amor sofrer-se,
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé,
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm,
ou dos que olhando ao longe
sonham de humana vida
um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
e torturados são
na crença de que os homens
devem estender-se a mão?

Novembro 71
Jorge de Sena, "Exorcismos",1972

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

EXCERTO LITERÁRIO





Talvez o tempo, por si só, explique a cada um
 de nós o que é necessário para a felicidade.
 Talvez a felicidade seja sempre outra coisa
 que em cada idade se revela para que nos 
esforcemos de novo, continuamente. 
Há um amor guardado para cada fim. No limite,
 já não podemos adiá-lo. Temos de amar sem 
olhar a quem até que, olhando, o perfeito 
desconhecido nos seja familiar. Até que se
 invente uma família, tão pura e fundamental 
quanto outra qualquer. A felicidade, afinal,
 é possível, embora se esconda atrás de
 um mundo de tristezas. Mas nenhuma tristeza
 nos deve vencer. O destino de cada um é só
 este: acreditar, mesmo quando ninguém mais
 acredite.

Valter Hugo Mãe 
em “O Filho de Mil Homens”

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

EXCERTO




"Aceita,
 acolhe a minúscula astronomia de um jardim: 
os insectos com as suas múltiplas facetas 
e as delicadas antenas com que se orientam.
...
 Fascinantes, 
meticulosos ...

Uma fábula adormece ao sol das folhas: 
o jardim é um estremecimento."

António Ramos Rosa,
in,  Antologia Poética

EXCERTO LITERÁRIO




"Nós somos feitos de tempo; somos amassados da argila 
do tempo; somos feitos de idades, de estações, de horas,
de dias, somos feitos de cronometrias, isto é,
de medições de tempo, visíveis e invisíveis.
De facto, tudo o que é humano é feito de tempo; somos 
um reservatório de tempo; lençóis de tempo que se vão
acumulando. Para dizer uma palavra - somos duração...

José Tolentino Mendonça,
in Nenhum Caminho será Longo

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

EXCERTO LITERÁRIO



" Só  tardiamente descobri  a  poesia ,
 depois  de haver virado os 40 .
 Que  pena ! Quanto  tempo perdido ! 
A poesia  é  uma  das  minhas  maiores
  fontes   de alegria e sabedoria .
 Como  disse  Bachelard , 
" Os  poetas  nos  dão   uma  grande 
 alegria  de palavras ..." 
Aí  eu lhe  pergunto :  Você  lê
 poesia ? Se não lê , trate  de  ler . 
  (...)  

Leia poesia para que seus olhos sejam
 abertos . Leia poesia  para ficar
 tranquilo .
 Leia  poesia para aprender a ouvir ."

     Rubem Alves , 
in " Quarto de badulaques "  

domingo, 28 de agosto de 2016

EXCERTO LITERÁRIO




" É  inutil encurtar  caminho  e querer
 começar já sabendo que  a voz  diz  pouco ,
 já começando  por ser despessoal . Pois 
 existe  a  trajetória ,  e  a trajetória
 não é apenas um modo de ir . A trajetória
  somos  nós  mesmos . Em  matéria de viver ,
 nunca  se pode chegar  antes ."    

  Clarice  Lispector ,
 in " A paixão  segundo G.H."

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

EXCERTO LITERÁRIO



Arte Claudia Tremblay

Mais tarde eu saberia que certas experiências
 se partilham - até mesmo sem palavras – 
só com gente da mesma raça. O que não
 significa nem cor, nem formato de olho, 
nem tipo de cabelo,
 mas o indefinível parentesco da alma.

Lya Luft,
in Mar de Dentro



sexta-feira, 19 de agosto de 2016

EXCERTO LITERÁRIO



" As pessoas suportam tudo , as 
pessoas às vezes procuram exatamente
o que será capaz de doer ainda mais
fundo , o verso justo , a música perfeita ,
o filme exato , punhaladas revirando um
talho quase fechado , cada palavra ,
cada acorde , cada cena ,até a dor
esgotar-se autofágica , consumida
em si mesma , transformada em outra 
coisa que não saberia dizer qual era ."


Caio Fernando Abreu
in , " Triângulo das Águas "

NASCER




Nascer
outra e outra vez
indefinidamente
como a planta sempre nascendo
da primeira semente;
pensar o dia bom
até criar a claridade
e nela descobrir
a primeira sílaba
da primeira canção.

Carlos Drummond de Andrade
In: Poesia Errante - 1988





PARA ONDE VOU, EU SEI...




" Para onde vou , eu sei.
Não sei por onde vou .
Ninguém sabe .
Feliz que seja assim
a estrada é a surpresa ,
a viagem é o imprevisto e o improviso
e os pés e o coração criam o caminho ."

Daniel Lima ,
in " Poemas "


segunda-feira, 25 de julho de 2016

CITAÇÃO





"Se ao longo do caminho houver uma campina em flor... 
já valeu a pena a passagem."

Walter Grando

terça-feira, 5 de abril de 2016

EXCERTO


Arte Josephine Wall

"Benditos os que conseguem se deixar em paz. 
Os que não se cobram por não terem cumprido 
suas resoluções, que não se culpam por terem
falhado, não se torturam por terem sido
contraditórios, não se punem por não terem 
sido perfeitos. 
Apenas fazem o melhor que podem. 
Se é para ser mestre em alguma coisa, então
que sejamos mestres em nos libertar da
patrulha do pensamento. 
De querer se adequar à sociedade e ao 
mesmo tempo ser livre.'' 

Martha Medeiros 

sábado, 12 de março de 2016

EXCERTO




"Querer fugir ao vazio e à angústia
 provocada pelo sentimento de ser 
livre e de ter a obrigação de tomar
 decisões, como o que fazer de si 
mesmo e do mundo ao redor - sobretudo 
se este estiver enfrentando desafios
 e dramas -, é o que suscita essa
 necessidade de distração, motor
 da civilização em que vivemos."


Mario Vargas Llosa,
 in “A Civilização do Espetáculo, 2012”



terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

MADURO PARA O CANTO




Maduro para o canto
vertes, cântaro,
a água pura
e suas sete cores
unindo lago e lago.
Barco em flor
rio correndo da prece
promessa em silêncio
da messe.

Sem pressa
o agapanto floresce.

Dora Ferreira da Silva
de ANDANÇAS 1948-1970.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

EXCERTO LITERÁRIO




"Quando morremos? Na verdade, morremos todos os dias.
Morte são também nossas decepções, nossos projetos falidos,
nossas ideias abortadas. Morte é tudo o que nega a vida.
A morte definitiva, a que encerra todos os atos, a que nos
apresenta a vida concluída, dessa não podemos tratar porque
ela nos excede. Restam-nos os insucessos que a anunciam,
neles acenam os signos do que não nos é dado alcançar.
Esperamos e conjeturamos. Como poderíamos, de outro modo,
elevar-nos acima da solidez dos corpos que nos cercam,
assinalando-lhes a precariedade?"

(SCHÜLER)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

EXCERTO LITERÁRIO



Uma árvore em flor fica despida e despojada
de suas folhas no outono. 
A beleza transforma-se em feiúra, 
a juventude transforma-se em velhice, 
e os erros em virtudes.
As coisas não permanecem sempre as mesmas
e nada existe realmente, as aparências e
o vazio existem de forma simultânea.

Dalai Lama , in
"O livro de Dias"













EXCERTO LITERÁRIO



Descobri a doçura de ter atrás de mim
um longo passado.Não tenho o tempo de
me narrar, mas às vezes, de improviso,
eu o vejo em transparência ao fundo do
momento presente:ele lhe dá sua cor,
sua luz,como as rochas e as areias se
refletem na cintilação do mar.
Antigamente, eu me embalava com projetos,
com promessas.Agora, a sombra dos dias
mortos aveluda-me emoções e prazeres.

Simone de Beauvoir
in “A mulher desiludida”




quinta-feira, 26 de novembro de 2015

EXCERTO LITERÁRIO




Comigo caminham todos os mortos que amei,
 todos os amigos que se afastaram,
todos os dias felizes que se apagaram.
 Não perdi nada, apenas a ilusão 
de que  tudo podia ser meu para sempre.

Miguel de Sousa Tavares
'Eternamente'


quinta-feira, 15 de outubro de 2015

''CANÇÃO EM OUTRAS PALAVRAS''




O melhor cuidado com o amor
é deixar que floresça,
pois amor não se cultiva: é flor
selvagem
Como as estações do ano, ele se abre,
dorme, e volta a perfumar a vida.
Amor é dom que se recebe
com ternura, para que não pereça
sua delicadeza em nossa angústia.

O amor não deve encerrar a coisa possuída,
mas ser parapeito de janela, ou cais
de onde se desprendam os revôos
e partam os navios da beleza
para voltar ou não, conforme amarmos:
nem de menos
nem demais.

Lya Luft
In Secreta Mirada


sábado, 19 de setembro de 2015

VAZIO




Há certos dias
Que sinto em min’alma
Um vazio infinito,
Um vazio sem sentido,
Um vazio indefinível,
Vazio dos ventos e procelas,
Vazio que vem de longe
Cuja origem desconheço,
Maior,
Muito maior que a solidão...

Há certos momentos
Que sinto dentro de mim
Um vazio talvez originário das vagas,
Dos grandes mares
E que às vezes me inunda,
Quase me faz soçobrar...

Há certas horas
Que sinto dentro de mim
Um vazio que se agiganta,
Diante do qual me sinto pequenino
E comparo este vazio tão grande
Ao vazio da hora do adeus...

Mas existe,sim,
Um vazio,
Muito maior do que todos os vazios,
E que se alojam no âmago dos corações,
O vazio imenso da saudade!...


Olimpyades Guimarães Corrêa 
Em Neblina do Tempo -1.996

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

DO LADO MAIS CALADO DO TEMPO


Arte Margarita Sikorskaia

Do lado mais calado do tempo
podemos falar das mãos das mães,
tão frágeis, quando trazem nas costas
a febre dos filhos.
Podemos sentir o rosto perturbado
das crianças que nos mostram a boca
mordida pela fome.
Podemos querer de volta o fascínio
dos papagaios de papel e do tempo
em que não faltava ninguém
nas fotografias da família. 

Graça Pires
De O silêncio: lugar habitado, 2009

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

CITAÇÃO




“A beleza agrada aos olhos,
mas  é a doçura da ação que
agrada a alma”.


Voltaire


quinta-feira, 23 de julho de 2015

FIM DE JORNADA


 
 
Caminhar ao encontro da noite.
Como o camponês regressa ao lar.
Após um longo dia de verão.
 
Sem pressa ou cuidado.
Na tarde ouro e cinza.
Sozinho entre os campos lavrados.
E as colinas distantes.
 
Caminhar, ao encontro da noite.
Sem pressa ou cuidado.
A noite é somente uma pausa de sombra.
Entre um dia e outro dia.
 
 
Helena Kolody,
in Vida Breve

EXCERTO LITERÁRIO



Viajar no mundo é também viajar no passado do mundo.
É descobrirmos traços visíveis do passado, em presença
de sítios os mais diversos, tanto monumentais como
assinalados por humildes pedras. A cada etapa,
o viajante é convidado a fazer-se historiador.

Jean Chesneaux, L'Art du Voyage.
 Paris, Bayard, 1999. p 101

quinta-feira, 16 de julho de 2015

EXCERTO LITERÁRIO



Lembrando o nascimento de meu neto Felipe

...
E então eu me inclinei, ergui-o nos braços,
apertei-o contra o peito e senti que estava
abraçando e beijando não apenas o meu primeiro
neto, mas também meus dois (duas) filhos (as), 
meus pais,minha mulher (meu marido)
e a mim mesmo (a).

Érico Veríssimo (e eu),
in Solo de Clarineta



quarta-feira, 15 de julho de 2015

EXCERTO LITERÁRIO




O pior medo é o medo de nós próprios
 e a pior opressão  é a auto-opressão. 
Antes de se tentar lutar contra qualquer
 outra coisa, penso que é importante 
lutarmos  contra ela e conquistarmos
 a liberdade de não termos
 medo de nós próprios.

José Luís Peixoto, 
 em  ‘Diário de Notícias’ (2003)

sábado, 11 de julho de 2015

PEÇO A PAZ E O SILÊNCIO




Peço a paz 
e o silêncio

A paz dos frutos
e a música
de suas sementes
abertas ao vento.

Peço a paz
e meus pulsos traçam na chuva
um rosto e um pão.

Peço a paz
silenciosamente
a paz, a madrugada em cada ovo aberto
aos passos leves da morte.

A paz peço,
a paz apenas
o repouso da luta no barro das mãos
uma língua sensível ao sabor do vinho
a paz clara,
a paz quotidiana
dos actos que nos cobrem
de lama e sol.

Peço a paz
e o silêncio.


Casimiro de Brito,
 in "Jardins de Guerra", 1966

terça-feira, 30 de junho de 2015

AS ROSAS




Rosas que desabrochais,
Como os primeiros amores,
Aos suaves resplendores
Matinais;

Em vão ostentais, em vão,
A vossa graça suprema;
De pouco vale; é o diadema
Da ilusão.

Em vão encheis de aroma o ar da tarde;
Em vão abris o seio úmido e fresco
Do sol nascente aos beijos amorosos;
Em vão ornais a fronte à meiga virgem;
Em vão, como penhor de puro afeto,
Como um elo das almas,
Passais do seio amante ao seio amante;
Lá bate a hora infausta
Em que é força morrer; as folhas lindas
Perdem o viço da manhã primeira,
As graças e o perfume.
Rosas que sois então? – Restos perdidos,
Folhas mortas que o tempo esquece, e espalha
Brisa do inverno ou mão indiferente.

Tal é o vosso destino,
Ó filhas da natureza;
Em que vos pese à beleza,
Pereceis;
Mas, não... Se a mão de um poeta
Vos cultiva agora, ó rosas,
Mais vivas, mais jubilosas,
Floresceis.

Machado de Assis,
in 'Crisálidas'

domingo, 21 de junho de 2015

EXCERTO LITERÁRIO



"A dor é uma estrada: você anda por ela,
no adiante da sua lonjura, para chegar
a um outro lado. E esse lado é uma parte
de nós que não conhecemos. 
Eu já viajei muito dentro de mim."

Mia Couto, 
in "Estórias Abensonhadas"




quarta-feira, 17 de junho de 2015

EXCERTO





 O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute
 de maneira calma e tranquila. Em silêncio.
 Sem dar conselhos. Sem que digam:
 “ Se eu fosse você”. A gente ama não é a pessoa
 que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito.
 A fala só é bonita quando ela nasce de uma 
 longa e silenciosa escuta. 
 É na escuta que o amor começa.
 E é na não-escuta que ele termina.
 Não aprendi isso nos livros.
 Aprendi prestando atenção.


Rubem  Alves  
 em O Mundo de Gaya

segunda-feira, 15 de junho de 2015

A VERDADEIRA MÃO




A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se

O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita

O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende

E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta

ANA HATHERLY
O Pavão Negro
(2003)