quinta-feira, 16 de julho de 2015

EXCERTO LITERÁRIO



Lembrando o nascimento de meu neto Felipe

...
E então eu me inclinei, ergui-o nos braços,
apertei-o contra o peito e senti que estava
abraçando e beijando não apenas o meu primeiro
neto, mas também meus dois (duas) filhos (as), 
meus pais,minha mulher (meu marido)
e a mim mesmo (a).

Érico Veríssimo (e eu),
in Solo de Clarineta



quarta-feira, 15 de julho de 2015

EXCERTO LITERÁRIO




O pior medo é o medo de nós próprios
 e a pior opressão  é a auto-opressão. 
Antes de se tentar lutar contra qualquer
 outra coisa, penso que é importante 
lutarmos  contra ela e conquistarmos
 a liberdade de não termos
 medo de nós próprios.

José Luís Peixoto, 
 em  ‘Diário de Notícias’ (2003)

sábado, 11 de julho de 2015

PEÇO A PAZ E O SILÊNCIO




Peço a paz 
e o silêncio

A paz dos frutos
e a música
de suas sementes
abertas ao vento.

Peço a paz
e meus pulsos traçam na chuva
um rosto e um pão.

Peço a paz
silenciosamente
a paz, a madrugada em cada ovo aberto
aos passos leves da morte.

A paz peço,
a paz apenas
o repouso da luta no barro das mãos
uma língua sensível ao sabor do vinho
a paz clara,
a paz quotidiana
dos actos que nos cobrem
de lama e sol.

Peço a paz
e o silêncio.


Casimiro de Brito,
 in "Jardins de Guerra", 1966

terça-feira, 30 de junho de 2015

AS ROSAS




Rosas que desabrochais,
Como os primeiros amores,
Aos suaves resplendores
Matinais;

Em vão ostentais, em vão,
A vossa graça suprema;
De pouco vale; é o diadema
Da ilusão.

Em vão encheis de aroma o ar da tarde;
Em vão abris o seio úmido e fresco
Do sol nascente aos beijos amorosos;
Em vão ornais a fronte à meiga virgem;
Em vão, como penhor de puro afeto,
Como um elo das almas,
Passais do seio amante ao seio amante;
Lá bate a hora infausta
Em que é força morrer; as folhas lindas
Perdem o viço da manhã primeira,
As graças e o perfume.
Rosas que sois então? – Restos perdidos,
Folhas mortas que o tempo esquece, e espalha
Brisa do inverno ou mão indiferente.

Tal é o vosso destino,
Ó filhas da natureza;
Em que vos pese à beleza,
Pereceis;
Mas, não... Se a mão de um poeta
Vos cultiva agora, ó rosas,
Mais vivas, mais jubilosas,
Floresceis.

Machado de Assis,
in 'Crisálidas'

domingo, 21 de junho de 2015

EXCERTO LITERÁRIO



"A dor é uma estrada: você anda por ela,
no adiante da sua lonjura, para chegar
a um outro lado. E esse lado é uma parte
de nós que não conhecemos. 
Eu já viajei muito dentro de mim."

Mia Couto, 
in "Estórias Abensonhadas"




quarta-feira, 17 de junho de 2015

EXCERTO





 O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute
 de maneira calma e tranquila. Em silêncio.
 Sem dar conselhos. Sem que digam:
 “ Se eu fosse você”. A gente ama não é a pessoa
 que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito.
 A fala só é bonita quando ela nasce de uma 
 longa e silenciosa escuta. 
 É na escuta que o amor começa.
 E é na não-escuta que ele termina.
 Não aprendi isso nos livros.
 Aprendi prestando atenção.


Rubem  Alves  
 em O Mundo de Gaya

segunda-feira, 15 de junho de 2015

A VERDADEIRA MÃO




A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se

O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita

O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende

E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta

ANA HATHERLY
O Pavão Negro
(2003)

sexta-feira, 12 de junho de 2015

SONETO DE FIDELIDADE




De tudo, ao meu amor serei atento 
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto 
Que mesmo em face do maior encanto 
Dele se encante mais meu pensamento
Quero vivê-lo em cada vão momento 
E em seu louvor hei de espalhar meu canto 
E rir meu riso e derramar meu pranto 
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim quando mais tarde me procure 
Quem sabe a morte, angústia de quem vive 
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa lhe dizer do amor (que tive): 
Que não seja imortal, posto que é chama 
Mas que seja infinito enquanto dure

VINÍCIUS DE MORAES 
In Livro de Sonetos, 1967

quarta-feira, 10 de junho de 2015

O QUE É SIMPATIA




Simpatia - é o sentimento
Que nasce num só momento,
Sincero, no coração;
São dois olhares acesos
Bem juntos, unidos, presos
Numa mágica atração.
Simpatia - são dois galhos
Banhados de bons orvalhos
Nas mangueiras do jardim;
Bem longe às vezes nascidos,
Mas que se juntam crescidos
E que se abraçam por fim.
São duas almas bem gêmeas
Que riem no mesmo riso,
Que choram nos mesmos ais;
São vozes de dois amantes,
Duas liras semelhantes,
Ou dois poemas iguais. 
Simpatia - meu anjinho,
É o canto de passarinho,
É o doce aroma da flor;
São nuvens dum céu d'agosto
É o que m'inspira teu rosto...
Simpatia...
é quase amor! 


Casimiro de Abreu (1839-1860)


segunda-feira, 8 de junho de 2015

EXCERTO LITERÁRIO





"O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida,
e restaurar na velhice a adolescência.
Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o
que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia 
é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um
homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde;
mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo (...)"

Machado de Assis
in: Dom Casmurro


domingo, 7 de junho de 2015

EXCERTO LITERÁRIO




"O menino então sorri e nem o inimigo mais
feroz resistirá a esse sorriso de quem se
oferece tão sem defesa."

Lygia Fagundes Telles ,
in Verão no Áquário

terça-feira, 2 de junho de 2015

CITAÇÃO




É, pois, falso dizer que na vida «decidem as circunstâncias».
Pelo contrário: as circunstâncias são o dilema,
sempre novo, ante o qual temos de nos decidir.

Mas quem decide é o nosso carácter.

Ortega y Gasset,
in 'A Rebelião das Massas'


domingo, 31 de maio de 2015

CITAÇÃO


Arte de Vladimir Kush


Poesia é uma rede de palavras por cujos
interstícios se ouve uma melodia que
faz chorar."

Fernando Pessoa,
in Obra Poética

sábado, 30 de maio de 2015

DA PRAIA ESCALDANTE...


Arte Vladimir Kush

Da praia escaldante, 
do toldo de brancura,
o livro abriu ao vento suas folhas
como doces gaivotas palpitantes
em busca de outros mares...
...,
quedaram-se, na praia , esquecidos,, 
os búzios, entontecidos...
....
serenamente, o livro em seu altruísmo,
deixou partir suas folhas brancas,
pelo mar azul
pelo céu
pela luz
pelo mar,
rumo ao sol,
onde todos falam
a mesma língua dos poetas..
...
Nidia Horta,
 30 de Maio de 2015

EXCERTO LITERÁRIO


“Entre as desesperanças da hora, 
e à falta de melhores notícias,
venho informar-lhes que 
nasceu uma orquídea....”

Carlos Drummond de Andrade,
in “Nasce uma orquídea”

quarta-feira, 27 de maio de 2015

CITAÇÃO




“Muitas pessoas perdem as pequenas alegrias
 enquanto aguardam a grande felicidade.” 

 Pearl S. Buck 

sábado, 23 de maio de 2015

EXCERTO LITERÁRIO



Todas as relações morrem. 
Todas. Sobretudo as mais preciosas.
Porque só a essas pessoas exigimos que nos dêem,
para sempre, os gestos e as palavras ao nível 
de tudo o que já deram.

Ora, quando alguém nos decepciona, morre um bocadinho 
dentro de nós. Quando alguém morre um bocadinho dentro
de nós, morremos para a vida nesse morrer.

Assim, as relações amorosas ou nos dão a vida 
ou tiram a vida.


Eduardo Sá  
 em   “Nunca se perde uma paixão”

sexta-feira, 22 de maio de 2015

EXCERTO LITERÁRIO




O Tempo é um ser difícil. Quando queremos que ele
 se prolongue, seja demorado e lento, ele foge às
 pressas, nem se sente o correr das horas.
 Quando queremos que ele voe mais depressa que o
 pensamento, porque sofremos, porque vivemos um
 tempo mau, ele escoa moroso, longo é o desfilar
 das horas.


Jorge Amado,
em O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá

quinta-feira, 21 de maio de 2015

EXCERTO LITERÁRIO




“...todos nós, os que desejamos demasiadamente,
os que temos uma dimensão a mais não poderíamos
viver se não existisse uma outra atmosfera
onde respirar além da atmosfera deste mundo,
se a eternidade não existisse além do tempo;
e esse é o reino da Verdade.
A ele pertencem a música de Mozart e os poemas
dos grandes poetas que você admira...”

Hermann Hesse,
in O Lobo da Estepe

domingo, 17 de maio de 2015

EXCERTO LITERÁRIO




 Aprendi, assim, que para penetrar no segredo das
 coisas  é necessário primeiramente, entregar-se  a
 elas...para conquistar um recanto do campo,
 rondava dias e dias pelos atalhos, ficava horas
 imóvel ao pé de uma árvore; então,a menor vibração
 do ar e cada matiz do outono me comoviam.
 
Simone de Beauvoir,
in Memórias de uma moça bem-comportada               

FRUTOS DA TERRA




...Bendito o sol
que amadurece os frutos da terra.
Mais bendita a luz
por que anseia a noite escura da alma.


 Fernando Campanella
do poema "FRUTOS DA TERRA"

quinta-feira, 14 de maio de 2015

POEMA DE MAIO


Fotografia de  Nelci Kaletka


O poema
roça o abril da garganta
e multiplica seu tecido
de palavras.
Será um poema de maio.

Terá a luz da palavra
luz
e o brilho da palavra estrela.

Depois
haverá o abraço frio do outono
e o verbo
desaparecerá.


Edival Perrini


quarta-feira, 13 de maio de 2015

AMOR É RESPIRAÇÃO




O que eu fiz de mais puro 
não foi rabiscar uma estrela, 
ou desenhar um pássaro voando, 
ou esculpir na madeira uma flor, 
ou escrever um lindo poema de amor. 
tudo isso posso fazer com as mãos. 

o que eu fiz de mais puro
foi criar os meus lindos filhos
porque eu preciso todos os dias
de minha vida amá-los com o coração. 

até o impossível a minha mão traça
mas amor não, amor é respiração. 



Mauro Lúcio de Paula


terça-feira, 12 de maio de 2015

NATUREZA MORTA




Natureza morta
pequenas coisas,moedas, um livro
um relógio, o colar
e um sono para esperar
pequenas coisas. Um cálice
para o açúcar, mas que seja
da melhor prata e antigo
como essas pequenas coisas
para esperar o sono: um colar
a marca da identidade
de meias palavras, que se entenda
quem pode assim essas coisas
no meio de uma noite
quente como um prenúncio,um livro
a parede aberta em diagonal
e um sono de pequenas coisas
identificáveis

Álvaro Pacheco

segunda-feira, 11 de maio de 2015

sábado, 9 de maio de 2015

EXCERTO LITERÁRIO


Arte Sandra Bierman

[...]

O primeiro toque sobre uma criança 
ao nascer vai definir parte de seu destino:
é a atmosfera de amor ou de hostilidade
e frieza, que reina entre seus pais.
Nascendo, caímos nessas marés sombrias ou
positivas. Se forem menos saudáveis,
chegamos ao mundo como quem naufraga.
Serão precisos muito esforço pessoal e
afetos bons para nos salvar...

Lya Luft,
em Pensar e Transgredir


quarta-feira, 6 de maio de 2015

segunda-feira, 4 de maio de 2015

PROVÉRBIO MEXICANO




"Tentaram nos enterrar,
 mas não sabiam que éramos sementes."

(Provérbio Mexicano)

terça-feira, 28 de abril de 2015

CITAÇÃO




"Nem sempre é necessário tornar-se forte.
Temos que respeitar nossas fraquezas.
Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza
legítima à qual temos direito.
Elas correm devagar e quando passam pelos
lábios sente-se aquele gosto pouco salgado,
produto de nossa dor
mais profunda."


Clarice Lispector

segunda-feira, 27 de abril de 2015

DA REALIDADE


Arte de Egidio Antonaccio


Que renda fez a tarde no jardim,
Que há cedros que parecem de enxoval?
Como é difícil ver o natural
Quando a hora não quer!
Ah! Não digas que não ao que os teus olhos
Colham nos dias de irrealidade.
Tudo então é verdade,
Toda a rama parece
Um tecido que tece
A eternidade.

Miguel Torga
In: Antologia Poética

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Às VEZES TUDO SE ILUMINA




“Às vezes tudo se ilumina de uma intensa irrealidade
E é como se agora este pobre, este único,
este efêmero instante do mundo
Estivesse pintado numa tela, 
Sempre”...

Mario Quintana ,
in A Cor do Invisível

quarta-feira, 22 de abril de 2015

NÃO DEIXES




Não deixes que termine o dia sem teres crescido um pouco, 
sem teres sido feliz, sem teres aumentado os teus sonhos. 
Não te deixes vencer pelo desalento. 
Não permitas que alguém retire o direito de te expressares, 
que é quase um dever. 
Não abandones as ânsias de fazer da tua vida algo extraordinário. 
Não deixes de acreditar que as palavras e a poesia podem mudar
o mundo. 
Aconteça o que acontecer a nossa essência ficará intacta. 
Somos seres cheios de paixão. 
A vida é deserto e oásis. 
Derruba-nos, ensina-nos, converte-nos em protagonistas de
nossa própria história. 
Ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua: 
tu podes tocar uma estrofe. 
Não deixes nunca de sonhar, porque os sonhos tornam 
o homem livre.


Walt Whitman
(31 de maio de 1819- 26 de março de 1892)

domingo, 19 de abril de 2015

NA VÉSPERA DE NÃO PARTIR NUNCA...





Na véspera de não partir nunca 
Ao menos não há que arrumar malas 
Nem que fazer planos em papel, 
Com acompanhamento involuntário de esquecimentos, 
Para o partir ainda livre do dia seguinte. 

Não há que fazer nada 
Na véspera de não partir nunca. 

Grande sossego de já não haver sequer de que ter sossego! 
Grande tranquilidade a que nem sabe encolher ombros 
Por isto tudo, ter pensado o tudo 
É o ter chegado deliberadamente a nada. 

Grande alegria de não ter precisão de ser alegre, 
Como uma oportunidade virada do avesso. 

Há quantas vezes vivo 
A vida vegetativa do pensamento! 
Todos os dias sine linea 
Sossego, sim, sossego... 
Grande tranquilidade... 

Que repouso, depois de tantas viagens, físicas e psíquicas! 
Que prazer olhar para as malas fítando como para nada! 
Dormita, alma, dormita! 
Aproveita, dormita! 
Dormita! 

É pouco o tempo que tens! Dormita! 
É a véspera de não partir nunca! 

 
 Álvaro de Campos,
 in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa
 


A POESIA



"A poesia é o instrumento mais generoso para eliminar a 
solidão, a indiferença, o desencanto, o cinismo e a 
discri- minação.
A solidão vale como espaço para refletir em profundidade 
sobre nosso destino comum e a ausência de solidariedade
que desequilibra o sistema social, acentua privilégios 
e exclusões.
Se o poema, muitas vezes, amadurece sem terras, em solidão,
sua existência (resistência) se justifica para lembrar 
que o ser humano mais uma vez não é ilha, mas partilha."

Lindolf Bell


sábado, 18 de abril de 2015

FILHAS DO OUTONO




As folhas afogam
a foice do tronco cortado.

As folhas sabem
da face do plano amargo.

Sabem, as folhas,
das rimas torpes e pobres.

Sabem, as folhas,
das manhas, serras e dramas.

As folhas, caindo, afogam
o Tempo que engole a História!



Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"




quinta-feira, 16 de abril de 2015

ALGUMAS PALAVRAS...




"Algumas palavras. Poucas.
Ditas como por acaso.
Não propriamente ditas.
Só pressentidas Como folhas verdes .
Um verde, digamos, brilhante.
De laranjeiras.
Foi como se de repente
chovesse: 
as folhas, quero dizer, as palavras brilharam. 
Não que fossem ditas,
mas eram de amor, embora só adivinhadas.
Por isso, brilhavam. 
Como folhas ,molhadas. "

Eugênio de Andrade


domingo, 12 de abril de 2015

CEREJEIRA EM FLOR




Acordar, ser na manhã de Abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz, ou o quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração de uma cereja.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 10 de abril de 2015

quinta-feira, 9 de abril de 2015

TEM DE SER EQUILIBRISTA...




"Tem de ser equilibrista até o final. E suando muito,
 apertando o cabo da sombrinha aberta, com medo de cair,
 olhando a distância do arame ainda a percorrer
 - e sempre exibindo para o público um falso sorriso
 de serenidade. Tem de fazer isso todos os dias,
 para os outros, como se na vida você não tivesse
 feito outra coisa, para você como se fosse a 
 primeira vez, e a mais perigosa. Do contrário, 
 seu número será um fracasso."


Fernando Sabino

segunda-feira, 6 de abril de 2015

VIII



Não te iludas, amigo, não te iludas
se os livros graves em que tanto estudas
te dão a crença de que és mestre e sábio.
A verdadeira e sã filosofia
não reside na tua fantasia,
mas no silêncio que te fecha o lábio.


Alfredo Cumplido de Sant'Anna
in Poemas e Legendas


quarta-feira, 1 de abril de 2015

INSCRIÇÃO PARA UMA CABANA




O caminho dos simples coberto de musgo vermelho
A janela na montanha abrindo para o azul
Invejo-te o vinho que bebes entre as flores
e todas essas borboletas que voam nos teus sonhos.

Tsian Ki (722-780)
Trad.: Jorge de Sousa Braga

domingo, 29 de março de 2015

CURITIBA




Atrás do lençol de nuvens
Curitiba
meu exercício de sonhos.


Edival Perrini
in armazém de ecos e achados


sábado, 28 de março de 2015

POEMA DA ÁRVORE





As árvores crescem sós. E a sós florescem.

Começam por ser nada. Pouco a pouco
se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.

Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,
e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.

Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,
e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes,
e as sementes preparam novas árvores.

E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.
Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.
Sós.
De dia e de noite.
Sempre sós.

Os animais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
como se nada fosse.

As árvores, não.
Solitárias, as árvores,
exauram terra e sol silenciosamente.
Não pensam, não suspiram, não se queixam.
Estendem os braços como se implorassem;
com o vento soltam ais como se suspirassem;
e gemem, mas a queixa não é sua.

Sós, sempre sós.
Nas planícies, nos montes, nas florestas,
A crescer e a florir sem consciência.

Virtude vegetal viver a sós
E entretanto dar flores.


António Gedeão
in: Obra Poética,



ARAUCÁRIA





Nasci forte e altiva,
Solitária.
Ascendo em linha reta
- Uma coluna verde-escura
No verde cambiante da campina.
Estendo braços hirtos e serenos

Não há na minha fronte
Nem veludos quentes de folhas
Nem risos vermelhos de flores,
Nem vinhos estoantes de perfumes.
Só há o odor agreste da resina
E o sabor primitivo dos frutos.

Espalmo a taça verde no infinito.
Embalo o sono dos ninhos
Ocultos em meus espinhos,
Na silente nudez do meu isolamento



Helena Kolody











sexta-feira, 27 de março de 2015

CANTIGA OUTONAL




Outono. As árvores pensando ...
Tristezas mórbidas no mar ...
O vento passa, brando ... brando ...
E sinto medo, susto, quando
Escuto o vento assim passar ...

Outono. Eu tenho a alma coberta
De folhas mortas, em que o luar
Chora, alta noite, na deserta
Quietude triste da hora incerta
Que cai do tempo, devagar ...

Outono. E quando o vento agita,
Agita os galhos negros, no ar,
Minha alma sofre e põe-se aflita,
Na inconsolável, na infinita
Pena de ter de se esfolhar ...



Cecília Meireles
In Nunca Mais e Poema dos Poemas

domingo, 22 de março de 2015

VOO




Alheias e nossas as palavras voam. 
Bando de borboletas multicores, as palavras voam 
Bando azul de andorinhas, bando de gaivotas brancas, 
as palavras voam.
Viam as palavras como águias imensas.
Como escuros morcegos como negros abutres, as palavras voam.
Oh! alto e baixo em círculos e retas acima de nós, em redor de nós as
palavras voam.
E às vezes pousam.

Cecília Meireles ,
in Melhores Poemas








II






Não sejas o de hoje. 
Não suspires por ontens… 
não queiras ser o de amanhã. 
Faze-te sem limites no tempo. 
Vê a tua vida em todas as origens. 
Em todas as existências. 
Em todas as mortes. 
E sabes que serás assim para sempre. 
Não queiras marcar a tua passagem. 
Ela prossegue: 
É a passagem que se continua. 
É a tua eternidade. 
És tu”

Cecília Meireles
in Cânticos


XIII





Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem mais.
Multiplica os teus braços para semeares tudo.
Destrói os olho que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem semeado,
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro.
Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.

Cecília Meireles
in Cânticos


HOJE DESAPREENDO O QUE TINHA APRENDIDO ATÉ ONTEM





Hoje desapreendo o que tinha aprendido até ontem
e que amanhã recomeçarei a aprender.
Todos os dias desfaleço-me em cinza efêmera
todos os dias,reconstruo minhas edificações, em sonho eternas.

Esta frágil escola que somos, levanto-a com paciência
dos alicerces às torres,sabendo que é trabalho sem termo.

E do alto avisto os que folgam e assaltam, donos
do riso e pedras.

Cada um de nós tem sua verdade, pela qual deve morrer.

De um lugar que não se alcança, e que é , no entanto claro,
minha verdade, sem troca,sem equivalência nem desengano.

Permanece constante, obrigatória, livre:
enquanto aprendo, desaprendo e torno a reaprender.


Cecília Meireles
In O Estudante Empírico



REALIZAÇÃO DA VIDA




Não me peças que cante,
pois ando longe,
pois ando agora
muito esquecida.

Vou mirando no bosque
o arroio claro
e a provisória
flor escondida.

E procuro minha alma
e o corpo, mesmo,
e a voz outrora
em mim sentida.

E me vejo somente
pequena sombra
sem tempo e nome,
nisto perdida,

- nisto que se buscara
pelas estrelas,
com febre e lágrimas,
e que era vida.

Cecília Meireles
In:"Mar Absoluto & Outros Poemas